Enquanto marginalizam a arte, políticos ‘ignoram’ debate sobre a corrupção

12 out 2017

As coisas andam um pouco esquisitas nos últimos tempos. Enquanto estamos mergulhados na maior crise de representativamente política da história, envoltos no conhecimento de um mar de corrupção, parlamentares encampam uma cruzada contra a arte e os artistas. Ao mesmo tempo que o relator da denúncia contra o presidente Michel Temer (PMDB) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), apontava a inocência do peemedebista e criminalizava o Ministério Público Federal (MPF), a deputada paraibana Eliza Virgínia (PSDB) puxava discussão sobre os 500 anos da reforma protestante. E não apenas isso, contra os artistas devoradores de criancinhas. Algumas coisas, parece, nunca mudam.

É fato que estamos vivendo tempos atípicos na política. Ou melhor, no desnudamento dela. Na cultura e na arte, não. Ela sempre trabalhou a quebra de paradigmas, a provocação. É fato também, e isso fica evidente, que existe uma ação coordenada de políticos, evangélicos ou não, para tirar o foco das denúncias de corrupção. Tem havido uma verdadeira campanha pelas redes sociais, em entrevistas, em tudo, apontando para isso. Os alvos são os artistas e as obras de arte. Sempre foram. É o bode expiatório perfeito. Para encobrir os pecados dos detentores do poder, Onde até bem pouco tempo se via performance, passou-se a enxergar pedofilia, zoofilia, atendado à mora e aos bons costumes. Isso como se os artistas tivessem inventado agora a técnica de surpreender e até chocar o público. O teto da Capela Sistina é um detalhe.

A arte de desviar a atenção do que realmente interessa já foi usada outras vezes. Basta lembrar a “Santa Inquisição”. Mais recentemente, a exposição QueerMuseu, em Porto Alegre, virou o alvo dos ataques. Mais recentemente, uma performance no Museu de Arte Moderna (MAM), em São Paulo, entrou no mesmo roteiro permeado por ódio e exageros. Pedofilia, zoofilia, ataque à família, teve de tudo. O tema virou alvo de críticas do pastor Marcos Feliciano (PSC-SP) e de uma infinidade de parlamentares no contexto nacional. Na Paraíba, a deputada Eliza Virgínia identificou absurdos. Protocolou projeto na Assembleia Legislativa pedindo que seja proibida a vinda do QueerMuseu para o Estado.
Não tenho visto, no entanto, protestos dos mesmos parlamentares contra a corrupção. Foi constrangedor ver Bonifácio de Andrada colocar a Polícia Federal, o Ministério Público e “setores da Justiça” na condição de criminosos. Você pode discordar de procedimentos, ver exageros, mas grupo criminoso? O parlamentar disse que eles estariam tramando contra a boa fé dos políticos. Não por acaso, também dos políticos flagrados com malas de dinheiro, contas na Suíça e R$ 51 milhões no apartamento alugado. Convenhamos, a arte e os artistas sempre foram os mesmos. Os políticos, pelo que temos visto, também…

 

Blog do suetoni

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